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O DIÁRIO DA MINHA BISAVÓ - Conceição de Souza Lobato

Conceição de Souza Lobato

















SOMBRAS, SOMENTE SOMBRAS.
O diário de Conceição de Souza Lobato














Belo Horizonte, Julho de 1996


Licença Creative Commons
O trabalho SOMBRAS, SOMENTE SOMBRAS. de Conceição de Souza Lobato está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.

PREFÁCIO


Raras são as pessoas que tem a chance de conhecer de forma tão viva e próxima, a vida de seus avós.

Salvar a historia de minha avó, que se perdia pelo tempo em um caderno já tão amarelado e desbotado, é salvar a memória histórica do começo de uma família.

Acompanhando-a em cada linha, através das décadas, entre sua meninice e velhice, percebe-se seu espírito de luta, de sacrifícios, suas ingênuas traquinagens e seu imenso amor pela vida e pela alegria.

Vovó tem algo que ninguém ainda percebeu, que é uma facilidade imensa para as letras, e uma capacidade poética simples de quem não teve acesso ao mundo dos livros. E, foi nesta sua simplicidade que ela relatou sua vida, e nos deu a oportunidade de guardá-la como o início de nossas próprias vidas.

Hoje, percebo que herdei dela este amor às letras, e foi com este mesmo amor que tentei resgatar para cada um de nós o começo de nossas raízes.

É com imensa alegria que entrego a ela sua historia, respeitosamente colocada em roupas novas.



SONINHA


.

PARA TODOS OS MEUS FILHOS

Conceição de Souza Lobato


Eu os gerei,
Eu lhe dei a luz,
Lhes dei a vida com sorriso nos lábios e muito amor no coração.
Vocês eram crianças, vocês eram eu.
Eu caminhei, caminhei sem olhar para traz, pois tive medo da insegurança e da incerteza.
O tempo passou, mas suas marcas ficaram como cicatrizes que jamais se apagarão.
Agora, eu volto aos caminhos do passado para relembrar tudo de bom e ruim que passou.
Tudo que me machucou e tudo que me fez sorrir.
Não quero nunca perder esta força que hoje descubro em mim.
Como é maravilhoso ser mãe para se ter certeza que não está sozinha no mundo.
Agora com o corpo cansado e a cabeça vazia, ao lado de vocês descanso sem medo e deixo a vida passar.
Sempre tive medo da solidão, mas agora descobri que a solidão não é esta só, é estar vazia, por isto não tenho solidão, porque não estou vazia, tenho muitas coisas boas para pensar, e recordar, mas sei também que recordar e viver ou sofrer duas vezes. Mesmo assim, sinto imenso prazer em recordar a vida que tive com todos, e que ainda tenho...
                                                                                   
17 de Setembro de 1986


O MEU COMEÇO
A HISTÓRIA DE MEUS PAIS

Meu pai se chamava José Maria de Souza Lobato, era Filho de Mathias José de Souza Lobato e Dona Amélia de Souza Lobato. Meu avô era dono da fazenda Ponte Alta, era muito rico. 


Fazenda Ponte Alta -Pitangui

Mathias e Amélia tiveram muitos filhos, os nomes deles são: Mathias de Souza Lobato, José Maria de Souza Lobato, meu pai, Francisco Procópio Lobato, médico, Rodolfo de Souza Lobato, engenheiro, estes foram internos no Colégio Caraça. O ultimo teve duas Filhas, Sinhá e Sina. Conheci muito todas as duas, eu era muito pequena, nunca fiquei sabendo seus nomes, só os apelidos. Saná era fazendeira, a um quilometro de Pitangui. Até hoje são os mesmos filhos e netos de minha tia, que são os donos da fazenda. A fazenda tem o nome de Chácara dos Saldanha. A outra tia, era dona da fazenda do Amorim. Uma linda fazenda, provavelmente ainda é dos familiares

Meu pai era moreno, cabelos e olhos pretos, ele era alto, media um metro e oitenta e cinco centímetros de altura. Era muito bonito, de uma educação muito fina. Nunca zangava com a gente. Nós éramos treze irmãos, nunca bateu em ninguém.

Nunca fiquei sabendo o dia de seu aniversário, pois naquela época não usava comemorar aniversario e nem comentar. Só fiquei sabendo quando me casei. No ano de 1922 ele tinha 63 anos e minha mãe 56. Acho que se casaram muito novos, porque criaram esta filharada toda. Eu era a penúltima a casa, e eles eram muitos bonitos ainda.

Meu pai era amoroso, gostava muito da gente. Queria que tivéssemos uma vida boa, sempre alegre e sorrindo. Ele era muito culto, gostava que falássemos corretamente. Um dia, milha mãe mandou que eu picasse quiabo para ela, como estava perto de meu pai, fiquei com medo de expressar errado, perguntei assim para minha mãe: “- Mãe, cadê a culha para picar os quilhabos.“ Nessa hora ele achou graça, porque nesse dia ele havia me criticado muito, tudo que eu falava, ele corrigia. Mas acabei dando esta dos quilhabos, que até ele riu.  

Quando meu pai ficava em casa, lecionava para meus irmãos mais velhos e para os filhos dos parentes. Dava aulas de graças.

Quando crescemos, meus irmãos mais velhos se casaram. Meu irmão Amador ia em casa todas as manhas tomar a benção de meus pais.

Meu pai levantava cedinho, fazia café e ia molhar as plantas, meu irmão Amador que todos os dias ia lá para vê-lo, vendo-o assim molhando as plantas com aquele frio e nos deixando dormir até tarde, dizia para ele parar de fazer aquilo e colocar as meninas para fazer aquele trabalho. E ele sempre respondia que ia deixar as meninas tranquilas porque ele não sabia o que cada uma ainda ia passar durante a vida. Ele tinha muita pena de nós, ficava trabalhando naquele serviços brutos. Era muito amoroso e prestativo, mas não tinha iniciativa de nada porque não tinha sido educado para a vida aqui fora, só viveu no colégio interno do Caraça, como ia ser capaz de ser casado e criar treze filhos?

Aprendi as primeiras letras do alfabeto olhando quando ele ensinava os outros meninos de casa. Eu ainda não assistia as aulas porque era muito pequena ainda. Mesmo assim, aprendi. Sei muito pouco, sou quase analfabeta.

Meu pai nasceu em 1859 e viveu apenas 63 anos. Adoeceu com pneumonia dupla, quando lecionava na fazenda do Urucum, sendo levado para Ibitira carregado em uma cama por quatro homens, para a casa do Sr Faustino Gonçalves. Faleceu no dia seguinte, em 29 de Outubro de 1922. Foi levado para ser sepultado na Abadia, isso foi no ano em que casei.

Minha mãe era uma boa senhora, só que não estudou. Por isto era pouco civilizada, mas ela não tinha culpa nenhuma disso. Batia na gente, isto porque não aprendeu que em criança não se bate. Nos obrigava a trabalhar  muito na roça, mas mesmo sendo com era eu gostava demais dela.

Certa vez, em 1912, ela adoeceu com febre Tifo. Ela ficou isolada em um quarto por muitos dias e passando muito mal. No quarto, só entrava quem cuidava dela, eu só tinha sete anos e eles não me deixavam entrar em seu quarto. Como foi difícil ficar sem poder vê-la por tanto tempo!

Minha querida mãezinha, a quem eu adorava e gostava tanto. Quando eu te amava, minha mãe. Quantas vezes chorei por você quando ia para a casa do Messias, no Retirão. Eu chorava pelos terreiros, eu entrava dentro de casa e não te via. A casa estava vazia, grande demais, mas não me cabia.

Você demorava voltar, eu chorava o tempo todo, pensava que eu nunca podia viver sem a senhora. Mas o tempo passou e as marcas do tempo ficaram gravadas como cicatrizes. Fiquei por muitos e muitos meses em teu seio, aquecida ao calor do seu coração. O seu sangue era o meu sangue, o ar que você respirava é que dava vida e oxigênio ao pequeno explorador de sua vitalidade, que era eu. Ficamos ligadas uma à outra por um bom tempo, quando mãos estranhas nos separaram, cortando e separando o ultimo cordão que fazia de nossas vidas uma só vida. Mas, nem por isto nos afastamos uma da outra. O seu sangue generoso se transformou na brancura do leite, e eu continuei vivendo dele. E você Mãezinha, para você vieram depois as noites de vigílias em que você aplicava sobre minha fonte os lábios termos em minhas noites de febre. Me lembro bastante de sua bondade. 

Eu era tudo na sua vida, e me lembro com saudade de você, e me lembro que com quatro anos, como se fosse agora, papai me pegou no colo e sorrindo dizia para mim que eu era branquinha e que tinha os olhos do céu.  Quanta saudade, meu Deus!

Minha juventude

Nasci no dia 30 de Abril de 1905, em um lugar denominado Simão, um sitio de meu pai no município de Pitangui. No dia 12 de Maço de 1912, mudamos para a chácara de Barnabé. Eu tinha apenas 7 anos de idade e senti muita saudades de casa. Minha mãe me levava várias vezes para eu ver a casa pela qual eu tinha muito amor e estimação pois, foi ela que me viu nascer.

A nossa nova morada era uma casa enorme, com muitos quartos, sala muito grande, sala de jantar. Era um total de treze cômodos, todos assoalhados, inclusive a cozinha. O quintal tinha muitas laranjeiras, uma parreira de uvas pretas que eram uma beleza! Até há pouco tempo um ainda sonhava com a parreira. E ainda tinha um pé de maracujá que se alastrava pelo pé de amoras e a goiabeira. Tinha também um marmeleiro que meu pai colhia muitos marmelos para fazer doces. Lembro do pasto de capim meloso onde ficavam os animais.

Todos nos tínhamos um cavalo para passear, mas como tinha muito trabalho não tínhamos tempo para sair, por isso os cavalos eram muito gordos, pelos brilhoosos e muito velhacos. Não gostavam de serem presos. Ainda me lembro o nome dos nossos cavalos, o da minha irmã, acima de mim, chamava-se Miozote, o meu era Queimadinho, os de meus irmãos não me lembro mais.

Eu tinha as minhas vacas que eu mesma tirava o leite. Até hoje me lembro o nome delas, eis os nomes: Saudade, Amazonas, Uberaba, Mansinho, Faceira, Jarrinha, e umas novilhas que ainda não tinham nome.

Neste intervalo eu já adorava aquele lugar. Nos éramos muitos irmãos já casado, os solteiros eram o Nenzinho e o Nenê, e três meninas, eu era a do meio. Éramos uma família humilde, mas cheios de amor. Meu pai era um homem muito educado. Ótimo pai, não proibia de ir aos bailes, que na época era muito comum, mas tínhamos que ir com os nossos irmãos. A vida era muito difícil, não tinha dinheiro mas tinha muita paz e muito amor e por isso éramos alegres e felizes.

Na minha infância tive muitos fatos engraçados que na época passei muito aperto, como quando eu tinha 10 anos e minha mãe me mandou buscar uma maquina de costura na casa de meu irmão Amador, que era pertinho de nossa casa. Nos tínhamos um jumentinho muito mansinho que a gente montava nele a pelo, sem cabresto e sem nada, era só montar que ele ia aonde a gente queria.

Montei no burrinho e fui embora, cheguei lá, pedi a maquina, que era da marca “família”, que usava na época. Era novinha, pus a maquina na cabeça e fui embora. No caminho, tinha um pé de goiaba com uma penca de goiaba madura. Pensei: “Vou apanhar estas goiabas”, e quando o burrinho foi passando debaixo das goiabas, eu com a maquina na cabeça, agarrei nas goiabas com o burrinho andando e o ganho envergou, quando soltou fez um barulho que assuntou o burrinho e a maquina caiu no chão. Na queda ela quebrou amunhequinha de tocar que era de louça. Desci do burrinho muito apavorada, com medo que minha mãe fosse me bater. Fui pensando como eu ia contar aquela historia. Cheguei e disse, mentindo, para minha mãe que fui passar na pinguela e cai com a maquina dentro do buraco. Coitada da minha mãe, o aperto que ela ficou porque a nora dela era muito nervosa. Quando ela chegou e minha mãe lhe mostrou a máquina quebrada, ela disse “eu esperava por isto, carregar maquina na cabeça montada no burro...”, descobriu a mentira que antes minha mãe tinha acreditado.

Quando eu tinha 14 anos, aconteceu o casamento da minha prima Maica na Fazenda dos Monjolos. Nós fomos na véspera porque era muito longe. Nós morávamos perto de Pitangui e a fazenda era perto de Matinho Campos, ex Abadia. Nós éramos muitas pessoas, meu irmão casado e com sua mulher, meus dois irmãos solteiros, um amigo nosso, e eu.

Chegamos à noite e começaram a tocar um acordeon e logo começamos a dançar. Dançamos até de manha. Já era o dia do casamento, aprontamos e fomos para a cidade, todos a cavalo. Voltamos tarde era uma festa de gente rica. Fizemos um toldo no curral com aquelas mesas grades, cheias de comida da melhor espécie que se pode imaginar, mas eu não queria comer nada, nem água eu tomava, só queria dançar. Foi a noite toda até de manha. Depois do almoço eu e a Bina, minha prima, irmã da noiva, entramos para o quarto dela e dormimos. Veja o que aconteceu. Levantei, pulei a janela, sai não sei por onde, passei dentro da lama dos porcos, sujei minhas pernas ate nos joelhos, pulei muitas cercas de aroeiras, sai do curral. Era tempo de colheita de milho, o paiol estava cheio de milho. Fizemos uma cerca de pau deitado na porta, deixando apenas uma abertura que mal passava uma menino para pegar os milhos para os porcos, e puseram lá uma escada para subir, o que fiz? Subi pela escada, fiquei lá em cima descascando milho e jogando para os porcos, juntou uma porcada danada para comer. A minha cunhada me viu em cima, zangou-se comigo. “Desce com cuidado senão você cai”. Eu respondi para ela que aqueles porcos estavam com muita fome e que o Doco tinha-me mandado tratar deles. Quando eu disse isso ela viu que eu estava sonhando, porque Doco que eu dizia era meu irmão que tinha ficado perto de Pitangui. Eu desci, todos rindo de mim, eu também rindo e dizendo que não estava sonhando. A minha prima, dona da casa, me chamou na cozinha colocou água na bacia perto de uma prateleira com muita vasilhas. Tinha uma farinha de mandioca, eu peguei a farinha despejei dentro da bacia. Virou uma sopa, comecei pegar punhados daquela sopa e passando nas pernas, que já estava seca de barro. A dona da casa disse que do lugar onde eu dormia para ir ao paiol tinha que passar no lameiro dos porcos, pular muitas cercas de aroeira, e além disso tinha um ribeirão com uma cachoeira enorme que fazia muito barulho, mas Deus me ajudou que não andei para o lado dela.

Era tempo de muitas dificuldades, eu não estudei, mas acho que eu era bem inteligente. Eu achava muito feio as pessoas com os dentes estragados. Eu tinha quatorze anos quando tratei dos meus dentes com um dentista chamado Antonio Florêncio. Ele levou o seu gabinete dentário e instalou em nossa casa. A mãe deste moço morava na cidade de Pequi, onde meus três irmãos estudavam e algumas vezes eles iam para a escola sem tomar café, ai a mãe deste dentista dava café com alguma coisa para comer a eles. Ela se chamava Dona Maria Madalena, era conhecida de minha mãe e por isto minha mãe devia a ela muitas finezas. Já tinha uns dois meses que este moço pagava pensão e lavação de roupas a minha mãe. Um dia, minha mãe levantou e abraçou o rapaz e disse que aquele dia em diante ele não pagaria nada para ficar em nossa casa e contou a historia da mãe dele com os filhos dela.

Em 1920, meu irmão Luiz Lobato que nós chamávamos de Nenê, foi para Papagaio a convite de um turco amigo de meu pai e que se chamava Simão Rachid. Ele foi tomar conta de uma loja muito grande. Meu irmão era baixinho, e por isto ele tinha muito medo, morava sozinho, não tinha companheiros, e por tudo isto era uma responsabilidade muito grande para ele tudo aquilo. Mas ele enfrentou a situação, e nós sentíamos muita saudade dele. ficamos um ano sem ver nosso irmão porque ele não podia sair, e assim que completou este ano ele ganhou férias. Foi uma surpresa muito grande e uma alegria a chegada dele. Ele chegou à tardezinha quase de noite, e foi dormir. No outro dia, eu levantei cedo, ele ainda dormia, entre no quarto dele, peguei o terno, a camisa, os sapatos e o chapéu dele e fui para o meu quarto. Vesti o terno, coloquei a gravata, calcei os sapatos, pus o chapéu e fui para a casa do meu irmão Amador, ele e a mulher dele não sabiam que o Nenê tinha chegado, aliás, sabiam mas ainda não tinham visto. Quando eu cheguei na porteira do curral, minha cunhada estava tirando leite, quando ela me viu foi correndo para meu lado enxugando as mãos no pano para me cumprimentar. Mas, quando ela viu que era eu, ela pegou uma corda de piar as vacas e saiu correndo atrás de mim, como eu era muito esperta, nem abri a porteira, pulei por cima e saí correndo.

No mês de Maio de 1921, meu irmão Luiz casou-se com uma moça de Papagaio chamada Marieta, ótima moça. Ela tinha um irmão solteiro chamado Joaquim Garcia. Começamos a namorara no dia do casamento deste meu irmão, e teve uma festa muito boa. Dançamos a noite toda, ele queria dançar só comigo, foi preciso eu pedir a ele que dançasse com as outras também, que meu pai não ia gostar.

Neste mesmo ano, teve outro casamento, o de minha irmã Mariquinha, que foi em 11 de Junho de 1921. Joaquim ainda era meu namorado, mas nós éramos completamente diferentes, ele gostava de tocar violão e cantar, eu gostava de dançar. Nossa casa era muito grande e na festa tinha gente por todo lado, ele tocando e cantando no quarto da sala e nós dançando na copa. Ele morava em Papagaio e nós pertinho de Pitangui, minha cunhada Marieta me chamou de lado e me disse que o cavalo. Que ele estava cantando modinhas apaixonadas porque eu só queria dança, ele me disse que eu podia continuar dançando à vontade com os meus fás. Voltei para sala e continuei dançando, não pedi que ele não fosse embora, mas ele não foi e ainda ficou em nossa casa uns três dias. Continuamos namorando por uns oito meses, mas tudo terminou.

Quando eu tinha 16 anos, fui para Campo Grande na casa de minha irmã mais velha, o lugar era pertinho de Pitangui. Tinha um dentista que era cunhado do moço com quem eu ia me casar, ele tratou dos meus dentes, tudo direitinho. Naquele tempo usava muito ouro nos dentes, ele colocou coroa de ouro, restaurando e obturando, tudo a ouro na época custou 4500 mil reis, isso era uma fortuna, como foi difícil juntar este dinheiro! Ninguém podia ajudar ninguém trabalhei para minhas irmãs casadas, para minhas cunhadas lavando roupas, colhendo café, algodão, fazendo farinha de mandioca e polvilho. Enquanto não juntei o dinheiro eu não fui tratar dos meus dentes. Foi durante este tratamento de dentes que fiquei conhecendo o meu futuro esposo.

Eu e minha sobrinha mais nova do que eu um ano, passávamos na porta de venda dele todos os dias quando íamos e voltamos na porta da venda dele todos os dias quando íamos e voltamos do dentista. Ele saia do balcão e ficava nós olhando, até a gente sumir. Nos duas gostávamos dele, e tínhamos muita vontade de ver ele de perto e falar com ele. Mas não tinha uma oportunidade e ele era lindo... lindo.

Um dia, eu disse para minha sobrinha: “Vamos na venda comprar alguma coisa que lá não tenha”. Pensei e disse:”Vamos comprar papel de seda, e se por acaso tiver, vamos dizer que não tem cor que queremos, pois não temos dinheiro para comprar nada”. Chegamos na porta, ele sorriu para nós e convidou-nos para entrar. Eu perguntei se vendia Papel de seda, ele respondeu que infelizmente não. Não entramos, fomos embora contentes porque tínhamos visto ele de perto e trocado com ele.

Meu cunhado, João Custodio, coitada de minha irmã, o marido dela era muito preguiçoso e explorador. Com aquele negocio de namorado ele explorou muito o meu namorado.

Um dia, ele convidou o moço para reunir os companheiros e a família dele em sua casa, e que levasse os instrumentos para tocar e cantar. Eu fiquei muito contente com a noticia. Fui na sala olhei e vi como era uma coisa horrível aquelas paredes, parecia que nunca tinham sido pintadas, eram pretas igual graxa, um casa velha muito antiga e feia. Na sala, em um canto um monte de cambões, no outro canto um monte de baixeiros fedorentos. Na parede tinha uma cabide antigo cheios de selas da cavalo, eu olhei aquilo tudo e pensei;”Puxa, esta sala não pode receber ninguém”.

Peguei uma picareta, cavei o chão que era todo cheio de buraco, joguei água, soquei e acertei todo chão. Coloquei uma mesa, uma toalha sobre ela, apanhei umas rosas e melhorou bastante! Mas só não podia olhar as paredes que não teve jeito. Tudo de bagunça que estava na sala eu coloquei nos outros cômodos para poder receber as visitas.

Coincidiu que neste mesmo dia, meu pai, minha mãe, minha irmã mais nova e uma amiga minha, Benedita, que depois casou-se com meu irmão Nenzinho, chegaram. Aprontamos para esperar o pessoal, mina mãe e minha irmã fizeram muita quitanda no forno de tijolos, fizeram doces também. Eu estava radiante de alegria. As nove horas eles chegaram pararam na porteira do curral e tocaram. Meu cunhado quando ouviu os instrumentos tocaram abriu a porta da cozinha e sumiu no quintal. Nós ficamos todos muito desapontados com aquela atitude estranha. Saímos para recebe-los na sala. Começaram a tocar os instrumentos que eram dois violões, um acordeom, uma flauta e uma clarineta. Alguns já tinham cantado e justamente na hora que o meu futuro esposo ia cantar volta o dono da casa, fica parado na porta e diz:”Joãozinho, você param com isto porque meu irmão ficou louco hoje, foi para Barbacena amarrado. Estou muito triste, e boa noite”. Ficou um silencio total por uns segundos, depois a irmã dele levantou e disse:

“Vamos embora.” Era a irmã velha do Joãozinho que ajudou criar os outros doze irmãos, e por isto todos a chamavam de “ mamãe ia”.

Nós tínhamos feito muitas coisas de comer e beber, mas ninguém comeu nem bebeu nada.

Ai meu Deus, tanto trabalho, quantas desilusões... tudo isso aconteceu em 1921, no mês de Outubro. Logo naquele dias o meu namorado foi com todo aquele pessoal que foram na casa do meu cunhado, creio que a convite do meu pai, em nossa casa. Mas lá em nossa casa foi completamente diferente, foram muito bem tratados, divertimos muito, todos contentes e felizes. Logo de imediato ele queria conversar comigo e depois daria a resposta. Ele disse para meu pai que já tinha conversado e que eu queria. Meu pai respondeu que não faria nenhuma oposição.

Ficamos noivos e casamos no dia 19 de Janeiro de 1922. No dia seguinte fomos para nossa casinha, lá em Campo Grande. Meu pai foi conosco, era uma casinha pequena, sala, quarto, cozinha e a venda. Vivemos ali uns tempos, fiquei esperando o meu primeiro filho que nasceu no dia 6 de Maio de 1923, às 8 horas da noite de um domingo. Ele era tão pequenino, que parecia que nem ia escapar. Pedi que batizasse ele em casa, com medo que ele morresse sem ser batizado. Mas foi o contrario, era pequeno mas sadio, graças a Deus muito sadio. Quando tinha 3 meses era um bolinha, gordo e bonitinho. Quando ele tinha 9 meses nós mudamos para Macacos. Lá abrimos um armazém de Secos e Molhados. O lugar era horrível, cheio de montanhas e mato, eu tinha medo até de dia, eu tinha 18 anos de idade. Nesta casa entrou ladrões duas vezes. Resolvemos e compramos uma casa pertinho da casa de minha mãe, onde eu fui criada. Era uma casa ótima, novinha, com sala, dois quartos assoados, tinha quarto alqueires de cultura e quaro de campo, era fechado, separado. O campo era pasto onde ficava os animais de meu marido. Lá tinha uma égua que produziu dois burrinhos, de duas vezes é claro. Plantamos no terreno todo, milho, feijão, algodão, arroz, mandioca e cana. Meu marido comprou um engenho de ferro para moer a cana, comprou também uma prensa de rosca para empresar a massa de mandioca e o forno para torrar a farinha, comprou também muitos tacho de cobre para fazer polvilho. Esta casa nova com seis cômodos, quarto alqueires de cultura e quarto de campo e dois quintais de café, muitas laranjeiras, muitos pés de jabuticabas, muitas bananeiras de qualidade, maça. E eu cortava aquele cachos grandes de banana, colocando na despenca, amadurecia tudo de uma vez, ficava cheirando a casa toda, mas não tinha comesse e eu acabava jogando fora. Este terreno todo produzia para nossa despesa e que dava até para vender, custou para nos dois contos de reis, mas infelizmente meu marido adoeceu e teve que fazer tratamento internado em Itaúna. Ficou lá três meses, voltou ainda muito doente, tivemos que vender a casa para pagar o tratamento. Arranjamos um comprador, vendemos por dois contos e duzentos mil reis, pagamos a divida e sobrou para nos oitocentos mil reis. No dia 10 de Março de 1925, nasceu meu segundo filho que recebeu o nome de José. Nós morávamos na roça, longe de vizinhos, ele nasceu muito grande e gordo, acho que ele pesava cinco quilos. Eu tinha uma escola, o Joãozinho ficou tomando conta dos alunos, eu fiquei doente, com febre e dor de cabeça, e não queria comer nada. Eu custava aguentar os alunos estudando alto.

Um dia, Joãozinho pôs fogo no forno e fez uns biscoitinhos de polvilho com açúcar e canela e levou para mim dizendo: “Fiz estes biscoitinhos para você.” Os biscoitinhos estavam muito gostosos. Muito obrigada, Joãozinho, por tudo que você passou, e por tudo que você fez. Fiquei doente, não tomava nem um chá. Tive infecção. Minha mãe chegou para me visitar no dia que fez meu sétimo dia de parto, ela entrou no quarto e sentiu aquele mau cheiro, foi depressa no quintal e apanhou muito picão, tirou as folhas, socou e tirou aquele suco verde escuro e me deu para tomar. Fez muito suco para eu continuar a tomar. Como Deus é bom, só com isto eu sarei de uma doença muito grave.

Vendemos a casa, pagamos a divida  sobrou oitocentos mil réis. Mudamos de novo, fomos para bem longe para capoeira Grande perto de Para de Minas, na fazenda do Joaquim Pimenta, irmão de meu marido. Ele propôs nos ajudar, deu a ideia de um armazém para dividir os lucros. Aceitamos, eles foram com dois carros de bois a Para de Minas comprar tudo que precisava para o armazém, inclusive uma balança de pesar sacaria e outra de balcão.

Quando chegou a hora de pagar, ele mandou meu marido assinar as duplicatas sendo que ele é que era rico. Meu marido não aceitou, disse para o Joaquim que se fosse para ele ficar devendo não precisava partir os lucros com ele, pois ele tinha muito credito na praça e podia comprar o que quisesse sozinho. Mas antes disso, nós ficamos na casa dele uns três ou quatro meses, eu trabalhando muito não tinha tempo nem de pregar um botão na camisa do Joãozinho.

Joaquim comprava peças fechadas de brim e de cretone e eu tinha de costurar para toda a família dele, e ele tinha muitos filhos, eu ficava a semana toda fazendo calça para os homens e vestidos para a mulher e as meninas. Era eu quem fazia o sabão toda a semana, o sabão tinha o nome de “sabão de duas horas”. Eu ajudava na cozinha, trabalhei muito em troca de nada. Meu marido e eu mantínhamos sempre a coragem e boa vontade.

Outra mudança, bem longe de Matinho Campos, um lugarzinho chamado de Campo Alegre. Joãozinho comprou um ranchinho de sapé que tinha sala, quarto e cozinha. O ranchinho custou trinta mil reis. Não tinha água e para consegui-la tínhamos que andar muito e descer dentro de uns grotões.

Meu marido abriu em nossa sala uma vendinha e eu abri uma escola no quarto. Nossa mobília tinha ficado toda na casa do Joaquim Pimenta. Não havia condições para despachar nossas coisas, era muito difícil. Fizemos a nossa cama em uns caixotes de cerveja no meio do quarto, e quando o quarto virava escola, os meninos assentavam em volta da cama, eu sentava em um caixote com a maquina de costura no colo fazendo colchas de retalhos para vender num cantinho do quarto. Mas como professora eu estava por fora, não sabia quase nada. Era uma necessidade muito grande para sobreviver. Não tinha condições para lecionar, mas meu marido sabia bem mais que eu, e as coisas mais difíceis eu o chamava despistado para as crianças não perceberam.  Passei muito aperto aparecia alunos que sabiam mais do que eu. Neste lugar eu tinha muitos primos ricos, ricos fazendeiros cada qual com mais filhos. Arrumei vinte alunos que mal cabiam no quarto, tinha que ir para a cozinha. Alem dos filhos dos meus primos tinha outros alunos e eu cobrava cinco mil reis de cada um por mês. E graças a Deus todos aprenderam bastante e eu ganhei um dinheirinho que ajudou muito na alimentação das crianças. Neste lugar nasceram duas meninas e Lilia e a Lourdes. Moramos lá de 1926 a 1930, mudamos para uma casa que compramos por perto. Era uma casa muito boa, com sala, três quartos cozinha e despensa, um bom quintal só que não tinha nada plantado a não ser um pé de Jaboticaba que era uma arvore muito bonita e fazia uma sombra gostosa.

Meu marido sempre pelejando com a vendinha, sempre com esperança e boa vontade. Eu comecei de novo com a escola, agora já tinha mais espaço para os alunos. Ele e três primos meus compraram um terreno de campo limpo muito bonito perto pertinho de nossa casa. Cada um deu cinqüenta mil reis, o terreno custou duzentos mil reis. Mandaram construir uma capela e o padroeiro era São Sebastião, aquilo foi uma coisa maravilhosa. Todos os meses nós fazíamos a festa e vinha muita gente de todos os lados. Os nossos negócios aumentavam, nós construímos um barracão no largo da igreja e nos dias de festa passávamos para lá e eu mesma cozinhava para os músicos e para o padre. Eu fazia muita quitanda e muito doce fazia licor, pastel e vendia até café. Quando terminava a festa nós deixamos o barracão e voltávamos para nossa casa.

No dia 05 de Janeiro de 1932, nasceu Terezinha. No ano seguinte, no mês de fevereiro, mudamos para Abadia. Nesta época já tínhamos cinco filhos; Fio, Zezé, Lilia, Lourdes e Terezinha que tinha um ano e um mês, e fomos para uma casa que era nossa, e que serviu de moradia e de comercio. Tinha tudo pronto para negociarmos, um cômodo com duas portas, balcão e prateleiras. Havíamos vendido nossa casa de Campo Alegre por um conto e duzentos mil reis, a prazo de seis meses. Recebemos uma nota promissória, meu marido descontou e ficou com o dinheiro no bolso foi quando nos preocupamos em investir esta quantia no comercio.

Começamos a organizar o nosso pequeno armazém, Joãozinho foi ao atacadista e eu fui arrumar o cômodo. Como na casa havia muitos escorpiões e esse local estava muito sujo e cheio de bagunça, abri as portas e tirei tudo com muito cuidado, morrendo de medo que os bichos me atacassem. Fiz uma boa limpeza e tudo já estava muito limpinho. Quando eu ai saindo um escorpião saiu do chão e agarrou o meu pé descalço, levei muito susto, esfreguei o outro pé que também foi mordido. Senti muita dor. Vivia constantemente preocupada com medo que os escorpião atacassem as crianças.

Nossa vida estava na pior, a casa toda estragada e sem luz, sem nenhum conforto. Com muita fé em Deus começamos a negociar, meu marido comprou um saco de arroz, um de açúcar, um de café, um de farinha de trigo, um rolo de fumo, uma lata de bala de cinco quilos.

Durante a arrumação entrei um monte de pacotes de macarrão, fiquei abrindo e procurando algum que pudesse ser aproveitado, mas, estavam todos estragados. Em um canto encontrei um pacotão grosso que era canela em pau e que serviu para aumentar o nosso estoque que era quase nada.

Aprendi a fazer rosca da rainha de 20 quilos de farinha de trigo, e também brevidades em grande quantidade que era feito em um gamelão, a brevidade precisava ser batida até ficar branquinha e cheia de bolhas. As forminhas para assá- las, eu mesma fiz aproveitando as folhas de lata fina que vinham como embalagem dos fósforos. Com um compasso eu riscava as latas e cortava com a tesoura, fazendo as biquinhos com um alicate. Fiz cem forminhas que ficaram muito bonitinhas, pois todas ficaram do mesmo tamanho com o mesmo biquinho. Fazia também biscoitos de queijo, tarecos, doces e pé de moleque. Tudo isto eu fazia à noite, pois durante o dia não tinha tempo.

Meu marido comprou um jogo de víspora para tirar barato. funcionava assim: um copo de vidro no centro da mesa, todas as vezes que um ganhasse colocava uma ficha no copo, aquela ficha era nosso lucro. Eu e ele gostávamos muito de jogar, mas não jogávamos pois, não podíamos perder. Todas as noites havia muita gente jogando, eles gostavam muito porque eu servia café com quitanda a vontade. Daí a três anos já tínhamos uma boa loja com fazendas de todos os tipos, armarinho, calçados, chapéus, louças, ferragens e armazém sortido com secos e molhados.

Nossa conta no banco cresceu, já tínhamos dez contos depositados, melhoramos muito pois, três anos antes tínhamos começado com apenas seiscentos mil reis. Reformamos a casa toda, já havia luz. Ficou uma beleza. Conseguimos progredir trabalhando muito, pois, abrimos a loja cedinho e o movimento era constante, não tínhamos tempo para nada.

Ah! Me esqueci de um pedaço do caminho que passei em minha vida, quando meu marido adoeceu e tivemos que vender a casa como já disse antes, eu fiquei desesperada, trabalhei muito, apanhei muito algodão sozinha, porque não podia pagar quem ajudasse, enchi um quarto grande de algodão, que foi preciso tirar a porta para colocar o algodão que ia quase até o teto. Apanhei muito café maduro, no terreiro tinha mais ou menos uns cinqüenta alqueires, apanhei, espalhei no chão para secar, quando seco recolhi, fiz farinha de mandioca, polvilho, tudo para vender. Nos tínhamos plantado feijão na seca e chegou o tempo de colher, não tinha quem ajudasse e nem podia pagar.

Arranquei o feijão sozinha, como eu morava na roça já sabia tudo. Fui arrancando e fazendo aqueles montes pertinho uns dos outros. Quando terminei, peguei um lençol de casal e às seis horas da manha ia eu para a roça, enquanto o café estava unido de sereno, eu pegava aqueles montes colocava dentro do lençol e carregava para o terreiro da casa. Com isto gastei muitos dias, porque quando o sol esquentava eu começava a debulhar, não podia mexer, porque desperdiçava, carreguei na cabeça, fiz um montão, espalhei tudo, e encheu todo o terreiro. Fui no mato, que era perto, cortei muitas varas compridas e bati o feijão. Soprei na peneira, enchi três sacos pela boca, que mal dava para costurar as bordas. As roupas acabaram todas, só sobrou um vestido que lavava todas as noites. Nesta ocasião minha mãe foi ficar comigo e eu arranjei um menino de doze anos muito barrigudo, amarelo e muito preguiçoso para comprar as coisas para mim em Pitangui, que era a três léguas de distancia. Ele fazia compras, levava cartas no correio e também procurava cartas que sempre vinham para nós. Tive que arrumar uma pretinha que se chamava Etalvina, para tomar conta do Zezé que apenas sentava nesta época. Nos éramos seis, eu, minha mãe, dois filhos e os dois empregados. Meu marido deixou uma conta aberta no armazém de um tio dele, lá em Campo Grande, para comprar o que quisesse. Ele nos forneceu por três meses, quando meu marido voltou, foi acertar com seu tio pensando que tinha muito a pagar, foi um grande surpresa para meu marido, ele tinha um haver de centro e dezoito mil réis, isto aconteceu em 1926, quando eu tinha 21 anos.

Quando mudamos para Abadia, meu filho joãozinho a quem eu tratava de Fio tinha 10 anos, o Zezé 8 anos, e Lilia 6 anos, coitadinhos dos meus filhinhos, sofreram muito juntos comigo. Meu marido construiu um cômodo para uma padaria ao lado da casa. Nos primeiros meses arranjou um padeiro para trabalhar e ensinar os meninos. Muito tempo passado, eles já estando com 13 e 14 anos, tendo o padeiro deixado o trabalho, eles continuaram a fazer o pão e vendendo na rua. Eu ficava tomando conta de tudo, as roscar ficavam para eu assar, ai meu Deus, quanto trabalho! Eu trabalhava na venda, na padaria, não tinha empregada. A casa cheia de crianças, tirando água na cisterna, não tinha água na rua. Eu mesma lavava as roupas, terra vermelha, o sabão de bola preta, neste tempo ainda não tinha sabão de barra, eu sempre punha a roupa de molho no dia anterior, mas não tinha tempo de passar sabão de em roupa, havia sempre freguês na venda e as vezes eu ia deitar depois da meia noite e já na cama eu lembrava da roupa no molho e acabava me levantando. Ia para a cozinha, pulha a bacia grande em cima de um tamborete embaixo da lâmpada, ia passar o sabão naquele roupeiro todo e só quando terminava eu ia me deitar de novo. Eu não tinha tempo nem para comer, comia andando, olhando as coisas. Eu pegava o copo de café e um pedaço de pão, fazendo as coisas muitas vezes perdia o meu café e ficava por isto mesmo. Até que fiquei doente por excesso de trabalho. Fui a Pitangui, consultei um médico que me perguntou se eu tinha sofrido aborto, ou febre tifo ou hemorragia, nada disso eu tinha tido. Ele me disse que eu estava esgotada, me perguntou quantos filhos eu tive, respondi que tinha seis filhos. Meu medico achava que eu tinha era excesso de trabalho, mas eu não sentia nada e não emagreci nem um pouco, estava pálida e só não queria comer. Mas graças ao meu marido, que leu uma bula de remédio chamado saúde da mulher e viu que era bom para mim comprou três vidros, engordei três quilos, comprou mais três vidros, tomei tudo. Isto foi em 1934.

No 03 de Outubro, nasceu minha sexta filha, Maria José Pimenta, passei muito mal, meu marido chamou o Dr. Olavo Alves Pinto, que morava na mesma cidade, era um medico muito bom e caridoso, ia em minha casa duas vezes no dia, tratou de mim como se eu fosse uma pessoa de sua família. Fiquei sobre os seus cuidados vinte dias. Melhorei, ele aconselhou que eu andasse um pouco, e na minha casa não tinha degraus, fiquei contente com a noticia e me levantei. A tarde, disse para a empregada “- hoje eu vou jantar na cozinha” e ela me perguntou o que eu queria comer, eu  disse que queria um pouco de feijão inteiro e um pedaço de lombo de porco assado. Ela preparou para mim, na mesma hora que eu jantava chegou uma senhora e começou a conversar conversas desagradáveis, eu tive um arrepiamento da cabeça aos pés, deu um, mais outro e quando enterrou o terceiro já comecei a tremer, o Joãozinho pos  todos os cobertores em cima de mim, não valia de nada, ele teve que tirar cobertor da loja. Eu comecei a tremer as quatro horas e tremi até as oito da noite, mas já com muita febre, e esta febre durou oito dias.

Quando levantei, já tinha acabado o resguardo. Deste mesmo parto me aconteceu algo estranho, recebi um milagre, embora reconheça que não seja digna de receber milagres. No dia primeiro de Outubro de 1934, era sábado, eu ia ter a criança no dia três, na segunda- feira e eu muito cansada, com as pernas inchadas, indispostas, era o meu sexto parto e meu marido comprou um porco gordo para vender no armazém, eu quis vender o fato, mas não consegui. Desmanchei ele todo, lavei com água da cisterna, piquei aquelas gorduras, coloquei para fritar e precisava ficar bem frito, vermelho ate para poder sair aquele cheiro de fato. Peguei um copo de um litro feito de lata e comecei a tirar aquela gordura quente, saindo fumaça, e despejando numa lata, quando tirei o segundo copo o fundo do copo desmanchou a solda e caiu aquela gordura imensamente quente nas minhas pernas e pés, eu estava fazendo novena nas nove primeiras sextas feiras. Quando o copo perdeu o fundo e me queimou eu passei um sabão mole que tinha na cozinha só que ele escorregava por causa da gordura que untava minha perna. Os vizinhos vieram todos, a casa encheu e foi ficando tarde e as pernas só ardendo. O povo foi indo embora e só ficou os parentes que estavam morrendo de dó de mim. Eles foram dormir, eu fiquei com a casa aberta deixando o vento entrar, andando de um lado para outro, sentei em uma cadeira de barbeiro, fiquei balançando as pernas e rezei a novena, que antes era ajoelhada e depois dormi. Quando acordei de manha bem cedo, lembrei das pernas e pensei que deveriam estar cheias de bolhas, mas que surpresa! Não tinha nem uma pintinha de queimado, estava toda branquinha, como se nada tivesse acontecido.

Fiquei da cama o resguardo inteiro, um dia eu fiquei olhando minhas pernas notei que estavam aparecendo umas bolinhas secas, eu passava a unha e elas iam saindo junto com uma pele fininha e inteira pelas abaixo, ate a sola do pé, nos dedos e entre eles. Meu marido era muito preocupado, ficou sozinha, pelejando com as crianças e com as responsabilidades que antes eram minhas.

Neste tempo, o vigário de Martinho Campos era o padre Marciano, ele sempre me via comungando nas primeiras sextas feiras do mês e justo na ultima sexta que aconteceu o acidente, ele deu falta de mim e foi em minha casa levar a minha comunhão. Fiquei muito feliz e satisfeita, ele rezou uma oração muito bonita dos enfermos, fiquei contente por não ter perdido a minha novena, que era muito difícil para fazer por causa de tantas crianças, muito trabalho e tantas responsabilidade. Foi o milagre da novena que me ajudou naquela época.  

Mais tarde fiquei doente de novo, tive maleita, que era muito comum por aqueles lados, a doença me pegou após poucos dias do parto, o Dr. Olavo tratou de mim logo, imediatamente apanhei uma constipação, começou uma dor de dente terrível que inchou meu rosto todo. A garganta inchou por dentro e por fora, ate o peito inchou também, fiquei muitas noites sem dormir, sem comer, com muita febre, muita sede e não conseguia beber nada porque não descia. Tinha lá um farmacêutico, Sr Benjamim Santiago, muito moço e amigo que sabia tratar de qualquer coisa, mas não acertava comigo pois, eu estava cada vez pior. Um dia, eu estava desesperada com tanta dor e sede, chamei o meu menino Zezé, fui ao dentista, Dr. Antonio Paulino, cheguei, entrei, o Zezé ficou catando flor de Camélia no chão, ele era pequeno.

O dentista examinou e disse que talvez eu tivesse que para em Belo Horizonte fazer raspagem no osso. O dentista me deixou ali um pouco e foi atrás do Dr. Olavo entrou e me viu, ele assustou e disse “Não mexe no dente, eu vou tratar dela primeiro”, o dentista se recusou dizendo que se não tirasse meu dente não teria jeito para mim. O medico foi ao consultório dele e voltou trazendo dois ferros inoxidáveis da grossura de um dedo e com uns 25 cm de comprimento, ele colocou nos dois cantos de minha boca que não abria nem um centímetro, com os ferros ele conseguiu abri-la e o dentista levou o boticão e tirou o dente siso inferior sem anestesia porque de tão inflamado que estava ela não pegava. Quando ele tirou o dente, a minha vista escureceu toda, dormi por alguns segundos, quando eu pude enxergar de novo vi a manga do jaleco do medico toda suja de sangue e pus. O dentista fez um curativo muito bem feito, neste mesmo dia eu já pude tomar um pouquinho de mingau e dormir a noite toda. 
No ano de 1939, o comercio parou e nós com muito sortimento não tínhamos lugar para colocar nada. A loja cheia de mercadoria e o armazém empilhado de sacarias e caixas, mas ninguém vendia nada, acabou mesmo o comércio! E as duplicatas vencendo e não tinha dinheiro para nossa divida que era só de dezoito contos, mas meu marido era muito preocupado com as dividas. Ele traçou aquilo tudo por uma casa em Pitangui, naquele tempo imóveis não valia quase nada. Compramos uma casinha pequena em Ibitira e fomos para lá fazer uma sociedade com um compadre nosso Antonio Victor.

Fizemos um campo de algodão de quatorze alqueires, pusemos um armazém, tudo de sociedade. O campo foi tocado só com o dinheiro de armazém. Nossa compadre Conceição, esposa de Antonio Victor, quis que dividisse o armazém levando a metade para a casa dela, porque disse que gostava de negociar, meu marido não fez nenhuma oposição porque nós éramos muito amigos.

Na lavoura o campo deu muita lagarta e no armazém também não deu nada. O moço desfaleceu com as despesas e a partilha acabou. Tivemos muito prejuízo, o algodão deu pouquíssimo e o nosso compadre vendeu em Pompeu, não vimos o algodão. Ficou para nós um fundo de venda, que era quase nada, foi só prejuízo. Nem campo de algodão, nem armazém.

No ano de 1940, no dia 12 de Abril, nasceu minha filhinha Maria Helena Pimenta. Nos já morávamos em Pitangui. Foi lá que ela nasceu, no parto quem ficou comigo foi ótima senhora que fiquei conhecendo. Ela era minha vizinha, tinha o apelido de Nenê Chocha. Pitangui era uma cidade de gente boa e lá fizemos muitos amigos. Nossa casa era própria, muito boa. Morávamos lá um ano e meio e depois voltamos para Ibitira, que era muito bom para negociar. Ficamos lá pelejando com a vendinha e criando porcos.

Em 1942 ainda morávamos em Ibitira, nesse ano no dia 31 de Janeiro nasceu meu filho caçula, Gercy. Quando ele tinha oito meses mudamos para Belo Horizonte.

Meu filho João era muito inteligente, aprendeu com o primo dele a arte dentaria. Ficou muito entusiasmado e veio com o pai dele aqui para Belo Horizonte comprar um gabinete dentário novinho para ele. Meu filho ainda não era formado, trabalhava como dentista prático. Ele era muito criança, mas o povo confiava muito nele, creio que era por causa do pai dele que era muito honesto, correto e estimado, dava para ele esta força.

Meu filho trabalho em Ibitira, no Riacho Alberto Issacson e também num lugar chamado Carunhé. Ganhou muito dinheiro e nos ajudou muito.

Quando viemos para Belo Horizonte, em Novembro de 1942, os meninos Fio e Zezé não queriam por causa das namoradinhas e dos companheiros, mas como o pai deles era muito positivo, não disseram nada.

Chegamos às nove horas da noite. Desembarcamos na Estação de Carlos Prates, nós éramos dez pessoas; Joãozinho, eu, e os oito filhos. A mobília veio despachada no mesmo trem, mas só podia retirar no dia seguinte. Fomos a pé para a casa carregando as crianças pequenas Leninha e Gercy e também as malas.

Meu marido tinha comprado um lote com três barracões para moramos. Quando chegamos lá não tinha luz, e uma cisterna sem meios para tirar água. Ele tinha comprado duas caminhas de solteiro, tirei os colchões, coloquei unidos no chão e dormimos todos atravessados na cama. Os dois rapazes dormiram em duas almofadas de carro. Eu deitei no meio dos dois pequenos pois, amamentava o Gercy que tinha apenas oito meses. Estava virada para o que mamava, quando ouvi a Leninha mastigando no escuro, coloquei a mão no rosto dela,  meu Deus, ela estava dando acesso, mastigando com a boca cheia de espuma, com os olhos arregalados e dura. Fiquei meio doida, sem saber o que fazer, foi a primeira vez que ela tinha sofrido isso.

Ela nasceu no dia 12 de Abril de 1940, viveu até 1947. Era uma menina linda, loirinha, com os cabelos anelados, olhos azuis, cílios grandes. Era a alegria da casa, tudo que o rádio tocava ela aprendia, cantava e também dançava.

Morreu num hospital de neurologia. Meu marido ficou transtornado. Quando ela se acabou ele já estava lá fora no portão, não quis mais olhar para a Leninha, deixou tudo por minha conta e do meu filho João. Fio arrumou um táxi e ficou esperando na porta do hospital, eu fiquei com ela no quarto do hospital. Demorou muito para que fosse liberado o atestado de óbito, eu estava muito preocupada porque tinha escutado uma conversa que quem morria no hospital, o corpo ficava para estudo na escola de medicina. Fiquei angustiada, mas não contei nada para meu marido porque o que preocupava ele eu não contava, queria poupá-lo, pois era muito doente. Nesse dia pensei tiro ela daqui de qualquer jeito, ninguém pode me prender pois, não sou nenhuma criminosa. Fiquei olhando para ela na cama, estava muito branquinha e muito grande. Eu fiquei em pé perto da cama, mas não chorava, porque eu pensava que tinha que agir muito. Quando a irmã entrou no quarto eu perguntei se podia tira-la. Ela disse que não e foi embora. Depois de muito tempo ela voltou a sumir. Eu estava tremendo de nervoso, as mãos suadas apertadas com tanta força que as unhas feriram a palma das minhas mãos.

Mais tarde, a irmã torna a aparecer, eu novamente perguntei e ela me disse – porque está com tanta pressa? Eu respondi com poucas educação:- não quero mais ficar aqui e não saio daqui sem ela. A irmã abriu um armário, tirou uma colcha branca dobrada e me entregou dizendo:- Pode leva-la. Eu embrulhei ela na colcha de desci as escadas do terceiro andar. Ela estava quase do meu tamanho. Meu marido estava no portão com Adélia, sua irmã. Eu entrei no carro, Adélia me ajudou. Ela ficou no meu colo e as pernas no colo da Adélia. Fomos para a casa, coitado do meu marido! Ele estava arrasado. Não olhou mais para a Leninha.

O enterro ficou marcado para doze horas do dia seguinte, que era 21 de Abril. Todos os dias, Joãozinho e eu saímos de casa, pegamos o ônibus Calafate e voltamos pelo ônibus processo. Era uma fuga, isso durou mais ou menos dois meses.

Ia me esquecendo, quando viemos para Belo Horizonte, era tempo da guerra. Havia muita dificuldade, não tinham preferência, gente assim como nós, que vinha do interior, não tinha onde comprar. Eu saía todos os dias para fazer compras, com muita insistência eu conseguia comprar um pouquinho de cada coisa.

Compramos um lote na Vila Futuro com três barracão por seis contos. Ficamos lá uns tempos: de 1942 até 1945. três anos de muitas dificuldades. Era tempo da guerra, não tinha quase nada para comprar porque os comerciantes já tinha a sua freguesia, que tinha preferência.

Ficamos na Vila Futuro até 1945, depois encontramos uma chácara anunciada pelo jornal. Fomos lá ver, gostamos muito e alugamos por trezentos e cinqüenta cruzeiros, ficamos na Rua Serro Corá nº 669, hoje Vereador Geraldo Pereira. Era uma casa muito boa com três quartos, sala, cozinha e banheiro. O quintal era enorme com muitas mangueiras de varias qualidades, muitos pés de caqui, muitos pés de pêra, ameixas do Japão. Como o terreno era muito grande, plantamos um mandiocal, dois lotes de quinhentos metros de batata doce que deu para engordar um caminhão de porcos gordos. Estas mudas de batata doce foi eu quem buscou junto com minhas meninas e Zé Pimenta lá no Engenho Nogueira. Plantamos milho, feijão e também um saco de batatinhas. Colhemos muitas batatinha. Depois meu marido plantou no quintal todas as mudas  de banana prata. Trouxe do matadouro um caminhão de esterco e um saco de adubo, misturou tudo e colocou dentro das covas.

Meu Deus, quanta banana! E das grandes! Parecia uma fazenda. Meu marido construiu no fundo da chácara um cômodo para colocar uma fabrica de sabão. As formas eram desmontável, de dois metros de comprimento, por um de altura e oitenta centímetro de largura. Este sabão era eu quem fazia, aproveitando os resíduos de carne e gordura, gastava oito dias para esfriar e endurecer.

Meu marido comprava nos entrepostos da cidade e nos outros açougues as canelas dos bois, tínhamos os empregados para quebrar com machado, mandamos fazer os tambores que cozinhavam mil quilos cada tambor. Eram quatro tambores e tirávamos 200 litros de óleo em cada um, eram 800 litros de óleo por dia. Vendíamos este óleo nas grandes fabricas da sabão. Ficamos nesse negocio de 1945 a 1948. não era preciso comprar carne para o pessoal de casa comer porque vinha muita carne dos ossos dos entrepostos. Quando o caminhão começava a descarregar, eu ia com uma bacia de cozinha e duas facas tirar a carne com muita pressa pois, não dava tempo. Eu tirava muita carne para casa e também para a fabrica de linguiça. Muitas vezes eu mandava 25 a 30 quilos de carne para vender, o motorista levava para mim na fabrica de linguiça e este dinheiro era meu.

Meu pensamento se adiantam e se atrasam no tempo enquanto vou buscando na memória a historia de minha vida. Neste instante lembro a alegria de meu filho quando meu marido comprou para ele seu gabinete dentário. Seu entusiasmo era tanto que ele logo quis fazer uma coroinha de ouro para sua irmã Nenê, só que não tinha o ouro. O Fio me perguntou se eu tinha algum ouro velho para fundir, eu disse que tinha, então ele disse que faria a coroa. Tirei das minhas orelhas os meus brincos e dei a ele, que colocou no maçarico e fundiu sem perceber que eram os meus brincos. No mesmo dia, a Nenê já estava com o dentinho de ouro rindo a toa. Um dia, ele deu falta dos meus brincos e me perguntou por eles, eu disse que eram aqueles que ele havia fundido. Ele achou muito ruim e ficou com do de te-los fundido, pois, eram da minha mãe que mandou furar minhas orelhas e colocou quando eu tinha três meses de idade.

Neste tempo, nos ainda morávamos em Ibitira. Ai meu Deus! Quanta saudade que sinto daquela casa cheia de crianças. Agora a casa esta vazia, triste e sem graça onde só escuto o tic ...tac do relógio, ficou um silencio total, mas seja feita a vossa vontade, Senhor. 

Depois da rua Serro Corá nós fomos para a rua José Benjamin nº1040. Compramos lá um barracão de três cômodos, coisa de gente muito pobre. Era um lote de quinhentos metros, tinha água e luz, fizemos uma modificação no barracão e construímos outro barracão ao lado, tirou o telhado e fizemos um telhado grande, ficamos duas moradias independentes. Ficou ótimo. Nós morávamos de um lado e alugamos o outro. Construímos no fundo de cada moradia um barracão, morávamos lá de 1954 à 1964.

Entre 1961 e 1963 compramos um lote na rua Costa Sena nº320. Não tínhamos dinheiro para construir, tomamos o dinheiro a juros de 4 %de um agiota, ele emprestava um milhão e descontava os juros adiantados. A gente só recebia seiscentos mil cruzeiros. Foi feito com muito sacrifício, mas foi tudo feito de uma só vez, o barracão dos fundos e a casa da frente. Alugamos o barracão e mudamos para a casa da frente. O barracão foi alugado por trinta cruzeiros mensais. Isto foi 1964, no mês de Junho. Moramos na casa até Junho de 1972. ao mudamos alugamos nossa casa por setecentos mil cruzeiros. Fomos morar no bairro Caiçara. Eu e o Joãozinho gostávamos muito de lá. Tenho muitas saudade do tempo que morei lá, tínhamos muita paz juntos, o Fio ia lá todos os dias, aquele carrinho verde estacionava na nossa porta, ai Senhor! Levaste meu filho, aquele que nos tínhamos presenteado com alegria, agora choramos o entregamos submissos a vossa divina sabedoria, a lembrança do seu carro me deu muita saudade de meu filho, e pensar que alguns anos ele já estaria mais entre nós....

Não pudemos ficar mais no Caiçara, porque adoeci com alergia, o Fio tinha um barracão muito bom nos fundos da casa dele, e quis que fossemos morar lá. Nos mudamos no dia 23 de Setembro de 1973. Neste mesmo dia meu filho sofreu um enfarte, teve que ir para o hospital Prontocor, ficou muitos dias no CTI, quando saiu, foi para um apartamento. Eu ia todas as manhas ficar com ele. Quando eu ficava no hospital, ele ainda não tinha tomado café, eu ficava até as dez da noite porque o Gercy fazia um curso, quando a aula terminava ele ia para lá. Logo que ele chegava, eu pegava um táxi e vinha para a casa. Isto era sempre às onze da noite. Moramos no barracão dele por seis anos e quatro meses, depois de sua morte fomos para Betim, no dia 22 de Janeiro de 1980.

Em Abril de 1982, perdi meu marido, uma convivência de sessenta anos e 71 dias. Meu Deus! Eu senti tanto sua perda, quanta falta me faz a sua companhia. Fiquei desequilibrada, e neste desequilíbrio fiquei mais um ano em Betim. A Nenê, o Paulo e as meninas me deram muito apoio, onde as horas do tempo maçavam horas triste e vazias. Há momentos na vida que a gente não sabe o que fazer, sente vontade de explodir e de desaparecer. São momentos de recordações de nossos entes queridos que partiram para nunca mais voltar.

Joãozinho, você me perdoa e eu te perdoo, porque te amo, e você também me ama, por isso entre nós dois não pode haver nenhum laço de ressentimento, pois perante Deus nós somos uma só pessoa. Meu filho querido, que Deus me deu no dia 06 de Maio de 1923, às oito horas da noite de domingo. Muito obrigada meu filho, por tudo que você foi e por tudo de bom que você fez por mim, para seu pai e seus irmãos. Obrigada meu filho pelo que você me deu desde pequenininho, pelo apoio que você me deu a vida inteira, obrigada pela pureza de seu coração, você tinha uma cabeça de homem e um coração de menino.

Senhor, meu filho e meu esposo não morreram, partiram primeiro e estão me esperando. No dia do Juízo final nós vamos nos encontrar para nunca mais nos separar.

Quantas coisas ficaram para trás que não escrevi. A vida é assim tão cheia das nossas historias, de tanta coisas nossa e ao mesmo tempo com pedaços de vidas de outras pessoas que foram se juntando a nós. Mas a nossa própria vida vai ficando esquecida, tão lá atrás, em um tempo que um dia foi tão nosso, imensamente cheio de sonhos e de juventude. Lembro de mim tão mocinha, tão cheia de vaidade, coisa natural da idade. Queria tantas coisas, e quase nada podia comprar, porque não tinha dinheiro. A coisa mais importante que eu queria era estudar, mas não foi possível. Eu queria ser muita gente, viajar, morar em apartamento só meu, fazer muitos negócios, ganhar muito dinheiro. Era assim que eu pensava, mas como foi difícil a vida! Viver é a coisa mais difícil do mundo. Assim como é difícil a lembrança de uma pessoa de mais de oitenta anos. Os fatos de minha vida se embaralhando em minha memória, eles vem em tempos tão próximos do hoje e se voltam em décadas tão distantes. Meu coração se alegra a cada fato que lembro, pois me traz de volta minha infância,  minha juventude e minha lutas morando em tantos lugares. Lembro de uma desta casas, uma que tinha um alto muito bonito e que tinha uma capelinha de São Sebastião, que era o padroeiro do lugar. Lá nos reuníamos, moças e rapazes todos conhecidos e amigos entre si. Ficamos juntos o dia todo. À tarde tinha procissão. Todas as festas eles me chamavam para carregar o andor de Nossa Senhora do Conceição. Quando terminavam já era hora de nos separarmos.

A coisa mais maravilhosa para mim era quando chegava em casa o programa da festa do Tijuco, pedindo prendas para a barraquinha. Ai meu Deus, que alegria! E ao mesmo tempo quanta preocupação! Como fazer para comprar um vestido porque não ia duas vezes com a mesma roupa. Eu e minha irmã tínhamos a nossa costureira em Pitangui, ela era ótima, se chamava Maria do Guilherme, o ultimo vestido que ela fez para mim foi o vestido do meu casamento, que era lindo. Como é bom recordar! É viver de novo.

Quando eu era menina morávamos em uma chácara, era uma casa muito grande. As galinhas botavam debaixo do assoalho, eu entrava para tirar os ovos. O assoalho tinha três alturas porque o terreno era caído, o primeiro era porão, o do meio eu andava de joelhos e de mão no chão e o ultimo era baixinho e não podia entrar. Eu olhava e via muitos ninhos cheios de ovos. Eu amarrava uma colher de ferro em uma vara e puxava os ovos. Levava para minha mãe o balaio cheio de ovos. Eu tinha muito medo de cobra, porque meu pai dizia que ali morava um casal de cobras, todos os dias à noite nós ouvimos um assobio muito alto debaixo do assoalho e um outro que respondia.

Deus é bom, nos dá força, luz, animo e aceitação em nossa caminhada. Nos orienta nos desertos das nossas duvidas, das nossas incertezas, neste mistério insondável da nossa vida. Ele vive para doar sempre o bem, ele está sempre presente em nossas angustias. Obrigada Senhor, muito obrigada Senhor, mais uma vez obrigada Senhor Jesus Cristo. Levaste meu filho joão, aquele que tinha nos presenteado para nossa alegria, agora o entregamos, chorando submissos à vossa Divina sabedoria, meu filho faleceu no dia 23 de Outubro de 1979, em uma terça – feira às 10 horas da manha.

Meu marido adoeceu em Dezembro de 1981, levei-o no cardiologista, Dr. Mario tomou os remédios inclusive injeções, que ele não gostava, não valeu de nada tais remédios.

No dia 05 de Janeiro ele foi em outro cardiologista em Betim, não melhorou nada. Em Fevereiro, fomos ao Dr. Vieira que receitou tantos remédios que ele até , assustou, tomava remédio o dia inteiro, terminando às dez horas. Era remédio de hora em hora e ele cada vez pior. Mas eu nunca pensei que ele fosse morrer, porque ele sempre foi muito doente e pensei que aquela crise fosse passar, e que só estava demorando por causa da idade. Ele queixava que via duas coisas juntas, me dizia muitas vezes que estava vendo duas de mim. Pensei que podia ser da vista, marquei consulta com o oculista e com o neurologista. O oculista foi o primeiro a ser consultado do dia vinte e nove de Março, e ele disse que o problema do Joãozinho não era das vistas. O neurologista foi para o dia seguinte, estes dois médicos foram consultados em Belo Horizonte e ficamos na casa de nossa filha Lourdes, no Padre Eustáquio.

Assim que retornamos da consulta do oculista, ao chegarmos na casa de Lourdes ele subiu as escadarias depressa. Tomou sopa, e as nove horas ele disse que já ia deitar que estava cansado, fui atrás dele porque já era hora de dar o remédio. Ele deitou e eu fui tomar o  banho até fazer a hora de dar a ele o outro remédio. Quando voltei do banho dei o ultimo remédio do dia. Ele me recomendou mais uma vez que pedisse só medico para não receitar injeções, pois, não iria tomar. Também não queria ser internado, e eu falei para tranquiliza-lo que faria o que ele pediu e acrescentei que a gente só interna se quiser. Dormimos.

No dia seguinte, às sete horas da manha eu acordei com ele com a garganta cheia de uma gosma, fazendo barulho. Eu sentei na cama e perguntei a ele se tinha gripado, ele me disse que não, pois tinha dormido a noite toda. Ele reclamou que estava com a fala atrapalhada, eu notei mesmo. Levantei, dei a ele as dentaduras e perdi que ele ajeitasse elas e que tossisse com força para ver se saia aquela gosma. Disse a ele que iria buscar o café, ele me perguntou se todos da casa já tinham levantado, falei que não, apenas a empregada. Ele me pediu as calças que estavam em um preguinho atrás da porta, peguei a calça e ele não tirou a calça do pijama. Peguei e tirei seu pijama e vesti a calça. Ele não ajudou em nada. Aí foi que notei que ele esta muito mal, porque ele era muito espirituoso, não era de pedir suas calças, ele mesmo levantava, pegava e se vestia sozinho. Neste momento eu saí correndo, fui no quarto de minha filha que ainda estava deitada. Eu disse que o pai dela não estava bem e ela e meu genro saíram correndo, chegando no quarto primeiro do que eu, quando eu entrei no quarto vi o joelho esquerdo dele dando arranquinhos, e ele dizendo assim “- atrapalhou tudo, se morrer não faz mal.”  Eu cheguei perto dele, pus a mão no ombro dele e disse”-não diga isto, pelo amor de Deus. O que você esta sentindo” . Ele não disse nada, foi a última coisa que ele falou,  deu um suspiro e entrou em coma, tudo isto em cinco minutos. Minha filha chamou o médico e uma ambulância. O medico entrou no quarto, aplicou nele uma injeção muito grande, ele não sentiu nada, não viu tirarem para a ambulância assentado em uma cadeira com a cabeça caída. Não deitaram ele na maca porque ele estava com a língua solta. Quando eu fui para entrar junto com ele o medico me disse que eu não deveria ir ali dentro, eu perguntei se era proibido, ele disse que não era, mas que não deveria. Eu falei que se não é proibido que eu iria sim, e fiquei segurando a mão dele, eu e o Gercy. Ele estava calçado de meias, com a trepidação do carro ele ia escorregando para frente, o motorista via e parava para consertar. Fomos para o hospital Prontocor, na rua Sergipe. Levaram ele para o quarto, vieram os médicos e disseram que me quarenta e oito horas resolvia. Isto foi na terça feira de manhã, ele continuou em coma até a sexta-feira, às onze e meia. Vi ele morrer, eu, a Lourdes e a Lilia, do mesmo jeito em que ele estava ele se acabou, não mexeu, não fez um gesto, só o coração parou.

Fomos para o velório, lá no Bom Fim, mas como ele mudou! Antes dele morrer ele estava com um semblante muito feio, ele tinha muito medo da morte. Ele estava lutando com ela. Depois que eles o arrumaram ele ficou sorrindo, eu assustei e disse que ele tinha encontrado com o nosso filho. Senhor, tu levaste meu esposo, meu amigo e companheiro de tantas caminhadas e tantas jornadas. Sempre de mãos dadas e valeu a pena, se fosse possível queria começar tudo de novo. O tumulo de mármore preto que mandei construir para você, joãozinho e para o Fio, como eu gostaria de ir ali todos os dias, para adorar e refletir. O que está ali dentro, estes restos mortais, que eram vida de minha vida, Fio e Joãozinho na casa de Deus que tem muitas moradas. Descanse em paz, meu amor, na santa paz do Senhor. Quando nós nos casamos ele dizia sempre que eu tinha uma auréola muito diferente das outras pessoas, eu perguntei um dia o que era isto, e ele falou que era aquilo que os santos tem em volta da cabeça, um esplendor, uma luz.

Ele morreu no dia dois de Abril de 1982, em uma Sexta- Feira. Nós morávamos em Betim. Fiquei em Belo Horizonte até a missa de sétimo dia, mas voltei lá em Betim na segunda- feira, dia 04 porque no dia em que fomos para BH consultar havia levado pouco dinheiro. Fiquei mais um ano em Betim, o tempo marcava horas tristes e vazias. Mas, como eu dizia, tinha ido a Betim buscar dinheiro no banco Mutual para pagar meu genro que havia pago as despesas com meu marido. Coitadinha da minha filha Lourdes, ela foi me levar de carro. Ai, meu Deus! Que desespero, que situação horrível e eu me fazendo de dura por causa da Lourdes, com medo dela descontrolar, sendo que a minha vontade era gritar e chorar desesperadamente porque tinha ido para Belo Horizonte com meu esposo e voltando sem ele, o meu companheiro e amigo de tantos anos. Como são dolorosas as perdas e como é terrível o lugar vazio, o lugar que se tornou tão cheio apenas de saudade...

A memória da pessoa velha vai à diante e volta atrás, como se neste ir e vir de tantas lembrança pudesse ir preenchendo os vazios que tantas décadas vão trazendo. Recordo que no ano de 1965 eu adoeci com uma cólica de fígado. Era no mês de agosto. Tirei radiografia e elas mostraram dois cálculos imensos que precisavam ser retirados. Fiquei muito doente e tive que esperar para poder ser operada, o que aconteceu em Outubro.

No dia 18 de Outubro fui para o hospital. Chovia muito à tarde quando saímos. Meu filho, João, nos acompanhou e depois ficou comigo e o pai dele até a hora permitida pelo hospital. No outro dia, às sete horas ele já estava de volta. Fiz os exames e marcaram a operação para o dia 22. neste dia, ele chegou às seis e meia, muito preocupado. Me levaram para a sala de cirurgia de carrinho e ele me acompanhou até a porta. A cirurgia começou às sete da manha e terminou às onze horas. Fiquei anestesiada até às quatro horas da tarde. Ao abrir os olhos reconheci o quarto, meu filho que me mostrou as pedras, mas não vi pois tornei a dormi. Toda vez que eu abria os olhos ele me perguntava se eu tinha visto as pedras e eu dizia que não. Ele ficava junto de mim tirando da sonda, com uma seringa de injeção, aqueles pedaços compridos de sangue coagulado e espuma que estacam na sonda em meu nariz. Coitado de meu filho, era dia e noite limpando o meu estomago. Fiquei internada 22 dias e ele ali junto de mim, acompanhando tudo. Ele trabalhava na Previdência e não podia sair, mas faltou de trabalho naqueles primeiros dias, depois dormia no hospital ia para trabalho, vinha e almoçava, voltava para o trabalho e ficou assim os 22 dias, não me deixou, foi e voltou comigo. E sempre com febre, só sarei mesmo em Janeiro.

No dia 03 de Janeiro de 1988, fui com minha filha Lilia e o marido dela para Pitangui. Fiquei na casa do Mundinho, que é genro da Lilia. Ele é dentista e eu tinha ido fazer uma dentadura. Fiquei muitos dias lá, nem sei quantos, pois o Mundinho não me deixava ir para a casa da Lilia em Itabira. Fomos para o sitio dele em Campo Grande e fizeram lá uma festinha onde compareceram muitos amigos dele, inclusive o prefeito com a família, o vice- prefeito, o candidato a prefeito, todos com suas famílias e muitas moças também. Acabou virando uma festa boa. Tinha um sobrinho meu tocando acordeom, dois homens tocando violão e dois cantando. Eram profissionais que tocam em festas e todos acabaram dançando, inclusive eu.

Não conhecia ninguém, só o meu sobrinho Raimundo, filho de minha irmã Mariquinha. Convidei uma senhora muito simpática, que se chamava Laura, para sentarmos na sala e ficar longe do barulho. Tinha lá uma mesa muito grande com uns homens jogando baralho e gritando muito, nós ficamos ali mesmo conversando e ficamos amigas. O meu sobrinho chegou e perguntou se eu gostava de musica e se os músicos podiam tocar para mim, eu disse que sim, pois adoro ouvir música e perdi que eles tocassem para mim “as andorinhas”. O marido da Laura, um senhor de Bom Despacho, simpático igual a ela, achou muito bom e ficou batendo palmas e cantando na maior alegria. Eu perguntei a ele se aquele era marido dela, e completei dizendo como era bom ter um marido alegre assim. Espantei quando ela disse que era só na frente das pessoas, que ele era muito bravo, batia nas crianças e brigava muito com ela. Nossa! Pensei, como as aparências enganam!

Em 1972, fui submetida a mais duas cirurgias, hemorróida e fistula anal, feita pelo Dr Odilon que em 1971 tinha me operado de um tumor maligno em meu nariz. Fizemos quinze aplicações que me preteou o rosto todo. No dia que terminou eu perguntei ao medico se o meu rosto ia voltar ao normal, ele disse que sim, mas que antes ia piorar um pouco mais. Passando uns dias, eu passei a mão no rosto e percebi que estava saindo uma aguinha, olhei no espelho e vi que do buraquinho da operação estava saindo água. Fiquei chateada, mas nada tinha a fazer e fui dormir. Eu só durmo de costas e durante a noite saiu tanto sangue do nariz que empossou nos meus olhos, escorreu no travesseiro, sujo a fronha toda. Amanheci com o rosto inchado, fiquei muito apavorada, procurei o Dr. Odilon, ele tinha entrado de férias e estava em Pompeu. Procurei o mesmo médico que tinha feito as aplicações, e ele me acalmou dizendo que tudo ia sarar.

Em Abril de 1983, resolvi construir aqui no lote nos fundos da casa onde meu marido e eu moramos vários anos, um barracão de dois cômodos. É nele que vou passar este tempo que ainda me resta, não sei quanto é mas, sei que vou ficar nesta solidão que sempre tive medo e horror.

No ano de 1985, fui para Itabira e fiquei com Lilia e a Lulu. Estava se aproximando o meu aniversario e elas combinaram de mandar celebrar uma missa para mim em ação de graças e queriam me fazer uma surpresa. Fizeram muitas coisas de comer, teve um bolo muito bonito, muito grande e confeitado tendo uma vela com os meus oitenta anos. Aí elas acharam que deveriam me contar da festa porque ficaram com medo de que eu me emocionasse. Mostraram me o bolo e arrumaram um monte de gente para fazer empadas, pastéis de carne e de queijo, uma torta salgada e deliciosos bolinhos de queijo. Compraram muitos refrigerantes de todas as qualidades.

A missa foi marcada para as oito horas da noite. Foi uma cerimônia muito bonita que eu nunca vi igual. Tinha o grupo de jovens tocando e cantando. No começo da missa o padre explicou que aquela era uma missa muito especial, pois era para uma pessoa que completava 80 anos e que isto não é coisa que acontece todos os dias. O padre se assentou e minha neta Silvana leu em voz alta um mensagem e o grupo de jovens acompanhando ao fundo com uma música baixinha e comovente. Muitos choraram e eu me fiz dura para não chorar. Ela falou no passado da vovó, de suas alegrias e tristezas, nos caminhos percorridos cheios de alto e baixo. Na inocência de menina moça, nas estradas vencidas, nas terras distantes, nos rostos queridos, das saias rendadas e flores nos cabelos, nas noites de luar e de serenata, dos amores sinceros, dos sonhos e das alegrias. E falava”nos rostos que lhe amaram busque os seus sonhos. O retorno de tudo que te fez sorrir, nos rostos que amaram, nas mãos que se juntaram às suas para rezar, para sentir emoções e para caminhar ao seu lado. Deve ser um sonho lindo, as coisas que você construiu de um passado cheio de luta, mas feliz porque você amou cada lugar que pertenceu ao seu passado.” Quando terminou a missa, o convidou a todos para cantarem o parabéns para a aniversariante. Ele foi o primeiro a me abraçar. A igreja estava muito cheia e todos foram me abraçar, inclusive o Oscar Alves que tinha sido meu aluno quando eu tinha os meus vinte e um anos de idade. Ele já meio velho me abraçou e disse “parabéns, minha professorinha, nunca em minha vida eu pensei que ia assistir este seu aniversario de 80 anos. Como o tempo passa!”

Saímos da igreja, fomos descendo para a cada da Lilia, o padre mandou me chamar, quando cheguei perto dele no carro, ele disse para eu me assentar que ia me levar em casa. Fomos batendo um bom papo. Ele me disse que eu irradiava muita felicidade e alegria. Fiquei contente porque eu pensei que estava sozinha e sem ninguém. Mas não era assim, graças a Deus eu ainda tinha muitos amigos, nunca ganhei tantos abraços em toda minha vida como naquele dia.

A vida nos ensina muito sobre o amor e sobre o viver com as pessoas que gostamos. A coisa que acho mais linda é o amor. Este sentimento é capaz de grandes maravilhas, pois ele tudo perdoa, não deixa ressentimentos entre as pessoas. É bom reviver o passado e poder sentir-se feliz por já ter amado e por ter sido amada e continuar amando sempre. Como é lindo olhar para trás e não ter porque se envergonhar de seus atos e dos seus procedimentos. Como é maravilhoso sentir pulsar dentro do próprio peito um coração puro que sabe amar. É maravilhoso porque o amor puro e límpido é o sentimento dos fortes. O amor é o sacramento da vida. Ame sempre, o amor o conservara de pé, embora você tenha que enfrentar duras e terríveis batalhas pela sobrevivência. Mas ao longo da caminhada você se sentirá recompensado porque cultivou e semeou sempre a semente do amor.

O amor tem sua própria linguagem, até mesmo a do olhar. Um olhar pode dizer o que milhões de palavras não diriam. Quantos mistérios se escondem num olhar! Olhamos tudo com sentimentos diferentes, olhamos o amanhã com duvidas, tudo parece inquietação e angustia, no entanto, maior é nossa tristeza. Nos momentos de solidão e medo da incerteza, a oração ameniza nossas dores e ilumina nossas trevas. Muitas vezes ficamos tristes porque perdemos um ente querido, e nos abatemos e nem sempre conseguimos vencer esta tristeza que toma conta da gente e nos amofina. Chegamos a cair numa profunda prostração que pode nos levar à ruína.

Se você esta triste, porque perdeu um amor lembre-se daquele que não teve um amor para perder. Perdi um grande amigo certo de minhas horas incertas... meu filho João.

O amor é mesmo este caminho que traz alegria junto com os que amamos e traz também a tristeza quando os leva para longe de nós. No dia 18 de Abril de 1987, Sexta Feira da Paixão, à uma hora da madrugada, perdi o meu segundo filho, José Alves de Souza, o meu Zezé. Ele morava em Lagoa Santa, uma cidade pertinho de BH. Estava dormindo, de repente sentiu uma dor no peito e morreu em poucos momentos. Tive um choque muito grande, um golpe muito profundo que jamais cicatrizará. Um filho que eu gostava muito. Como ele era bonito! Forte, alto, moreno de olhos verdes, cabelos volumosos e ondulados.

Eu estava em Betim, na casa de minha filha Terezinha, todos nós estávamos dormindo quando o telefone chamou. Minha neta atendeu, a mulher de meu filho deu a noticia de sua morte. Ouvi o telefone tocar mas voltei a dormi, e deixaram para me dar a noticia no dia seguinte, sendo que eles mesmos não conseguiram mais dormir. Ligaram para meu filho Gercy e disseram para ele ir para Betim ajudar a me darem a noticia. Ao acordar, todos foram para o meu quarto, mas ninguém tinha coragem de me falar o que tinha acontecido. Lembro que perguntei ao Gercy o que ele tinha ido fazer tão cedo em Betim e ele fingindo rir, disse que estava com saudade de mim e tinha ido me ver. E depois disse que o Zezé estava passando muito mal e ele tinha ido me buscar para eu ficar com ele. Disse que ele estava muito mal, em coma. Vesti a roupa para que pudéssemos ir depressa. No caminho, ao chegarmos perto da Gameleira o carro virou para o lado do cemitério da colina, e eu não tive duvidas do que tinha acontecido a ele. Chegamos e lá estava ele. Chegamos e lá estava ele no caixão, bonito, parecia que estava dormindo. Todos chegavam e admiravam como ele estava sereno. Não tinha ficado amarelo, não deformou. Ele ficou 30 horas esperando duas filhas que moravam no Rio e em São Paulo. E sei que foi para todos nós um momento extremamente difícil. Ver quem amamos partir para sempre é doloroso.

A minha memória traz para junto de mim todas as coisas que me trouxeram alegrias, mas me traz também tantas tristeza!... Os que se foram, marcam claro para mim o que significa estar na vida. Me faz ver que tudo aqui é passagem, e nada é para sempre. É o ciclo da vida se fazendo  e refazendo, celebrando esta verdade está vida e a morte. E como é difícil perceber que a vida continua sempre e sempre, independente de qualquer partida de alguém. O mundo em sua beleza vai servindo de morada para nós que buscamos com nossos olhos a incógnita da própria vida.   
   
A vida é esta mistura de coisas bonitas, feias, triste e alegres, então não faz mal que eu misture passado e pressente, coisas marcantes pela beleza e alegria com aquelas que marcaram pela tristeza.

Lembro que quando eu era criança, ouvi minha marinha, Rosa Jandira Lobato, conversando com minha mãe e dizendo que quem nunca tinha ido ao Rio de Janeiro nunca tinha visto nada bonito na vida. Que a coisa mais linda do mundo era o mar. Nunca mais me esqueci disso. Via o mar pela televisão e achava lindo. E foi no ano de 1985 que eu fui conhecer o mar. Achei mais lindo do que imaginava. Eu ficava querendo ver de longe porque sempre tive muito medo de água, mas que nada... O mar me atrai entrei muitas vezes, sentei na areia e as ondas batiam em mim, me deixando cheia de areia. Ficamos lá quatro dias, entramos no mar duas vezes todos os dias de manhã e de tarde, eu, Lourdes, Toezico e a Soninha. Mas, ainda vou voltar e para ficar muitos dias, se Deus permitir.
Saber sorrir. Estou feliz da vida. O meu rosto é um sol que brilha no meio dos homens. Os meus olhos falam o doce poema da alegria. Não quero perder nunca esta força que hoje descobri em mim.

Saber sorrir, é lindo o sorriso, acho a coisa mais triste quem não sabe sorrir para a vida. Desde criança sou alegre, tenho paz e muita alegria dentro do meu coração. Esta paz interior foi um presente que Deus me deu.

MEU CASAMENTO, MEU ESPOSO

Joãozinho e eu nos casamos no dia 19 de Janeiro de 1922. A cerimônia foi em casa, eu tinha apenas 16 anos. Era uma menina. Passamos uma longa vida juntos, cheia de altos e baixos, de alegria e tristezas.

No dia do nosso casamento, vieram dois padres. Dormiram na casa de meu pai e foi o padre Libério quem fez o meu casamento.

Penso no Joãozinho e tenho tanto a lhe agradecer...Obrigada meu esposo e amigo, meu companheiro de tantos caminhos, de tantas alegrias e também de tantas tristezas.

Obrigada por tudo que passou você foi maravilhoso. Ótimo pai e ótimo esposo. Algumas chatices, mas era para o nosso bem. Zelou muito por nós. Obrigada pelo nosso amor, pelos nossos filhos, pela longa caminhada que percorremos juntos, sempre de mãos dadas, valeu a pena. Desejaria que começasse tudo de novo.

Sei que chegará o dia em que encontrei você e o Fio e nunca mais iremos nos separar. Joãozinho, você me perdoa e a gente se perdoa. Você partiu deixando um vazio tão grande e tão triste em minha vida que ninguém preencheu. Você foi um grande amigo, com seus olhos meigos, eu queria adivinhar o que eles queriam expressar. Daí de onde você estiver lançar seu olhar de bondade novamente para mim. Te amei demais e você sabia disto. Joãozinho, nem sei se eu chorei no dia de sua morte, porque eu assustei demais, não pensava que você fosse morrer, esperava sempre que você voltasse ao seu normal e você não voltou...se foi...

POEMAS E CRONICAS


EIS O CAMINHO DA FELICIDADE

Mantenha o coração livre do ódio
E o espírito livre de aborrecimentos.
Viva com simplicidade.
Espere pouco e dê muito.
Se quer em sua vida o doce sentimento do amor
Derrame raios de sol e
Esqueça de si, e pense nos outros.
Não faça aos outros o que não deseja a si.

Meu Deus, me dê paz e amor
Para viver este resto de vida.
Senhor, terei paz um dia?
Creio que estará sempre ao meu lado.

20 de Março de 1979


MINHAS MÃOS:

Mãos que embalaram e ninaram meus filhos.
Mãos que trabalharam de forma incansável.
Mãos que afagaram.
Mãos que acariciaram.
Mãos que já fizeram muito bem.
Mãos que cavaram a terra.
Mãos que trabalharam em troca do nada.
Mãos que já foram beijadas.
Mãos que trabalharam fazendo o bem.
Mãos que plantaram.
Mãos que colheram frutos do seu trabalho.
Mãos que acenaram.
Mãos que disseram adeus.
Mãos que pegaram outras mãos.
Mãos que se uniram para rezar.
Mãos que se juntaram a outros mãos para caminhar.
Mãos que não trabalham mais porque não vale a pena e me confesso cansada.
Mãos que criaram energia, e se fizeram dos meus olhos para em cada linha deixar as minhas palavras e pensamentos para você meus filhos, que hoje seguram estas mesmas mãos.  


Vou contar uma história e ela é verdadeira, foi um acontecimento e sei quem é, mas não vou contar o nome da pessoa. Era uma cidade do interior, uma mulher casada, com 32 anos de idade, muito honesta e trabalhadeira. Ela tinha uma padaria e um padeiro. Esta senhora se apaixonou pelas mãos do padeiro, que na verdade eram muito bonitas, lindas. Eu também já olhei estas mãos.

Nós éramos vizinhos, o padeiro logo viu que ela tinha algo diferente e ficou gostando dela. Nestas alturas ela já tinha apaixonadíssima por ele, mas o marido dela tinha um ciúme dela e proibiu-a de trabalhar na padaria. Então, eles não se viam, mas morriam de amor um pelo outro.

Conheci muito este moço, ele era muito honesto, incapaz de fazer qualquer traição. Ela tinha muita confiança em mim, ficou tão desesperada que me contou tudo, mas logo o moço resolveu sair da cidade, ela também mudou e me disse uma vez que ele nunca tocou nela, nem em suas mãos, nunca disse nada a ela, só ficaram se olhando. Ele era feio, mas muito simpático e tinha as mãos tão lindas. Eles não tinham oportunidade para se encontrar e nem falarem, quando encontravam na rua, sorrindo um para o outro. As mulheres sempre são culpadas, são elas que provocam.


SOMBRAS...

Tudo em mim vai se apagando...
Cede minha força de mulher, de luta e digo que estou cansada.
A claridade se faz em nevoa e brumas,
O livro amado que escrevo, o negro das letras se embaralham
E entortam as linhas paralelas.
Dançam as palavras.

A distancia se faz em quebra a luz.
Deixo de reconhecer rostos amigos e familiares.
Um véu tênue vai se incorporando no campo da retina.
Passam lentamente como ovelhas mansas os vultos conhecidos que já não recordo mais.
E a catarata, amortalhando a visão que se faz sombra.
Sinto que cede meu valor de mulher, de luta.
E eu confesso.
Estou cansada.

24/05/1984